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Contam-se pelos dedos das mãos os homens interessados em preliminares e o Senhor Doutor saberá isso melhor que eu com tudo o que ouve aqui no consultório. Os mais velhos por mor de se terem iniciado no sexo com putas e isso não constar no cardápio e os mais novos, acossados com a máxima da rapidez que não há tempo a perder  só querem saber é de pôr logo uma gaja de quatro e despejar tudo no menor tempo possível.

Daí o meu espanto quando percebi que o Sting dos preliminares colocava tanta dedicação em converter-me as mamas em fruta na concha das suas mãos e as sugava como se bebesse água de coco num qualquer paraíso tropical. Os seus dedos faziam dele mil homens. Os seus dedos que não paravam de me escalar enquanto a sua língua me descia a pele até serpentear na reserva natural de mim própria, deglutindo repetidas vezes aquele bicho que dá pelo nome de clítoris ou clitóris, consoante queiramos acentuar mais o início ou o meio.

Era sempre atordoada que depois mergulhava nele a debicar-lhe o topo da glande e as esponjinhas da base não esquecendo os meus dedos de lhe garrotear o mastro que como portugueses as artes marinheiras são sempre as primeiras. Mas creia-me Senhor Doutor que eu se fosse o Cesário Verde diria que o supremo encanto da merenda era quando já sôfrega pela sua dádiva no chapéu da minha boca inclui a próstata na brincadeira com um dedinho maroto a esfregá-la afincadamente e ele jorrava como aquele menino estátua de Bruxelas.

Êxtase



Fiz a catequese toda de fio e pavio e como todos os outros lá levei com a banalização da cópula naquela história do Adão e Eva que afincadamente vincava o lado animal da coisa personificado na marota da serpente. Depois ainda me encheram os ouvidos com mais uma banalização do acto, mas desta vez sacralizando-o na Virgem Maria que através do Anjo Gabriel concebeu sem pecado.
E confesso que me sinto feita num molho de brócolos porque não me quero vulgarizar como uma qualquer princesa de história de encantar e conceder ao coito o estatuto de passe social para viver feliz para sempre. Prezo muito a minha sanita que nas horas de aflição dá vazão aos movimentos instintivos para atingir o divinal prazer do alívio. Sou uma aficionada da gastronomia tanto por me saciar a fome como para praticar os rituais de deleite com as iguarias. E à escrita entrego-me com o primitivo instinto de comunicar e a paixão sagrada de fazer nascer com as minhas mãos e o meu corpo todo algo diferente de mim. O meu êxtase é olhar em redor e absorver até à última espinha.

Sete





Carl Sagan às colheradas desde pequenina só podia dar na permanente tentação de pesquisar outros universos. E aquele espécimen eram sete de uma assentada. Como as saias das nazarenas eram sete camadas de pele sobrepostas. De menino púbere a velho sabedor, sem cãs devido à lisura da cabeça, entremeado de adolescente contestário a espreitar a sua sombra no chão, jovem musculado que já gostava de se olhar ao espelho,  trintão dedicado à procriação intensa e natural, quarentão eficaz a repetir as técnicas aprendidas e cinquentão mais dado a masturbações por mor das muitas dores nas costas e nos joelhos intensificadas pelo preconceito tão humano de que a partir dali se é velho. E nem um pêlo despontava em qualquer das peles e as unhas todas eram naturalmente envernizadas como se fora um puro sangue entregue aos cuidados de uma coudelaria.

Dava para anos de puro prazer de pesquisa. A chatice era o papel selado. E os formulários.

Tanta pele para ombros, braços, torsos e nádegas, pernas e pés e mãos e só uma para o órgão da procriação com os anexos devidos. Com acesso codificado e não informatizado,ó inferno!... Era necessário preencher à mão e em letra legível inúmeros formulários para ter acesso àquele pénis em tudo tão igual aos demais, mais largo na base e mais estreito na ponta. Ora se o meu interesse é mesmo a pesquisa tive de mandar a burocracia às malvas.

Explicação dos pássaros




Ele era inexcedível quando se atracava a mim
e subia uma mão por dentro da camisola até fazer saltar um seio do sutiã 
para os dedos titilarem o mamilo enquanto a outra se metia desvairadamente pelo cós das calças ou da saia
na ansiedade de um bando de pássaros migradores a bicarem cada milímetro das zonas húmidas

Wish you are in the sky with diamonds




Inegável que só lhe falo de homens, Senhor Doutor, essa espécie que uso para casar, para dar uma queca e para amar e se sempre tivesse sabido destas categorias teria poupado tanto em episódios depressivos.

Que mesmo que não o digamos pela boca fora sabemos que casamos com fulanos para formar uma empresa comercial, uma sociedade por quotas bastando para tanto que  invistam o seu capital nas compras semanais ou mensais, nas escolhas da família para férias, fins de semanas e todas as outras coisas que impliquem despesa e é suposto um casal fazer, para além de cumprirem a sua função de macho, mesmo que seja com a motivação que colocamos no preenchimento do IRS e eventualmente, acumulem com a reprodutora. A bem dizer, Senhor Doutor, são uma espécie de comida caseira como a das nossas avós.

Já os mânfios para dar um queca são o amante de domingo da Alexandra Lucas Coelho, a quem só exigimos que nos fodam como se não houvesse amanhã, que nos façam gemer enquanto nos amassam as mamas, nos sacodem as nádegas, nos enchem o pescoço de saliva e obviamente o clítoris, até atingirmos o clímax com a sua varinha de condão quase a tocar-nos o útero e a encher-nos toda a amplitude vaginal. É como uma gastronomia de festa, uma mariscada no Ramiro.

Os homens para amar são aqueles que podem até acumular as funções dos tipos anteriores mas que admiramos intensamente como pessoas, com os quais temos uma comunicação quase telepática, que cheiram a sensualidade nas palavras, nos gestos, nos olhares que nos fazem salivar a ponto da vagina ficar a latejar e qualquer minuto de comunicação ser um orgasmo. São os antidepressivos biológicos e amigos do ambiente.

Tivesse eu conhecido antes o Escitalopram, a pílula da felicidade como diz a minha farmacêutica, e nenhum dia teria sido menos do que bom porque depois da toma da manhã até o meu vizinho mais carrancudo parece sorrir para mim.



Uma imagem



Ai se ele soubesse!... Se ele soubesse que é a voz dele que me põe logo a escorrer gotinhas como uma torneira mal fechada. Se ele soubesse que são as ideias que a voz dele me transmite que ressoam em mim de tal forma que me assola uma vontade incontrolável de estender e distender os músculos vaginais enquanto decorre a comunicação como se fora uma genitália máscula a penetrar-me o corpo todo sem lhe escapar um porozinho que seja.

Que nós não usamos aquela modernice das chamadas com câmara pelo smartphone ou pelo skype, Senhor Doutor, que isso é uma invasão da nossa privacidade, da nossa intimidade. Com tanta imagem em circulação por aí, que são já milhões delas a entrarem-nos pelos olhos adentro, pela televisão, pela net, que usar isso seria vulgarizar a nossa imagem de um perante o outro.

Se ele soubesse que meto o dedo na boca nos espaços em que o ouço, contornando a ponta do indicador com a língua e pior, que às vezes me atiro para a cama, de barriga para baixo, para melhor erguer as nádegas e as agitar numa dança de rumba, salsa ou quiçá kizomba que está agora tão em voga, seria mau demais. Porque Senhor Doutor, nenhum homem gosta que uma mulher prefira a sua criatividade à sua virilidade física, não é?...